Com tradução em Libras e ferramentas assistivas no ambiente digital, projeto leva pesquisa sobre Freyre e Bandeira para estudantes da rede pública
O Espaço Pasárgada, na Rua da União, no Recife, deixou de ser apenas um templo de preservação da memória de Manuel Bandeira para se tornar um laboratório de inclusão. Nesta quarta-feira (16), aconteceu o lançamento da obra “Modernismo regional-provinciano-tradicionalista nas obras de Gilberto Freyre e Manuel Bandeira”, do pesquisador André Cervinskis.
O projeto propõe um debate que não se encerra no texto, garantindo que estudantes da periferia de Olinda ocupem o centro da discussão e ao implementar recursos de acessibilidade física e digital, o evento questiona para quem, afinal, é produzida a pesquisa acadêmica em Pernambuco.
A obra é fruto de uma imersão de décadas de André Cervinskis, jornalista e membro da Academia de Letras do Brasil (PE), na relação entre o modernismo paulista e o regionalismo pernambucano. O autor defende que o apego às raízes locais de Gilberto Freyre e Manuel Bandeira não representava um retrocesso. “O livro aponta que o provincianismo não se reduziu a mero saudosismo ou resistência conservadora ao progresso, mas configurou uma proposta estética, ética e política de uma outra modernidade”, afirma André. Segundo ele, realçar esses traços é fundamental para a “elucidação do estabelecimento e revisão dos modernismos no país”.
O autor também destaca que sua pesquisa atual amplia esse diálogo ao aproximá-lo dos desafios contemporâneos. Ao investigar a obra de Lucila Nogueira, ele busca compreender como questões de linguagem e identidade, antes ancoradas na tradição regional, se transformam em expressões mais fluidas, performáticas e conectadas ao cenário cultural do século XXI.
O evento de lançamento contou com interpretação em Libras, permitindo que a comunidade surda participasse ativamente da palestra e do debate. A garantia das acessibilidades se estendeu para o ambiente virtual. O autor disponibilizou em seu site (www.andrecervinskis.com.br) o livrobook, uma versão digital da obra equipada com ferramentas de acessibilidade comunicacional.
Ao comentar essas escolhas, ele reforça que a inclusão ainda é um dos principais desafios da educação brasileira e defende a necessidade de ampliar o acesso à cultura e à leitura para pessoas com deficiência e neurodivergentes, tanto por meio da formação quanto do investimento em práticas mais acessíveis. “A tecnologia surge, para mim, como uma aliada poderosa exatamente no sentido de ampliar, sem trair, o gesto que sempre defendi que é levar a literatura para além dos limites físicos do papel, mantendo viva a essência poética e cultural que defendo em meus livros. A tecnologia não substitui o livro impresso; ela o expande”, afirma André.
O recurso também garante autonomia de leitores cegos e com baixa visão, rompendo as barreiras que frequentemente excluem esses cidadãos do consumo de ensaios e críticas literárias.
Distribuição – O projeto também foca na formação de novos leitores através de uma ação direta com a Escola Costa Azevedo, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Estudantes de nível médio terão acesso ao debate mediado pelos professores Robson Anselmo e Alexandre Maia e realizarão uma visita guiada ao Espaço Pasárgada, conectando a teoria da sala de aula à experiência viva do patrimônio literário.
Em paralelo, para garantir que o conhecimento circule, 200 exemplares físicos serão doados a universidades, escolas e bibliotecas públicas. Segundo o autor, ações como essa contribuem para fortalecer a literatura. “É preciso fazer com que esses jovens compreendam a importância de ler, de sonhar e de imaginar. As narrativas e os poemas permitem entrar em um mundo de encantamento, muitas vezes distante de suas realidades e contribuem para a formação humana por meio da fruição artística proporcionada pelos livros e seus personagens”, afirma.
Acesse a versão digital acessível da obra em andrecervinskis.com.br.



