+

O Albinismo uma luta pelo direito de existir na sociedade

Imagem gerada por inteligência artificial. Fotografia em el close-up do olho esquerdo de uma pessoa de pele clara. O olho está aberto e voltado ligeiramente para a direita. A íris apresenta tons de azul e cinza, com padrões radiais detalhados. No centro, a pupila exibe um ponto avermelhado brilhante. Os cílios e as sobrancelhas têm fios claros. A pele ao redor do olho revela poros e linhas finas visíveis.

Brasileiros com albinismo enfrentam um sistema que ignora suas necessidades básicas de saúde e inclusão, transformando uma condição genética em um fardo de exclusão.

“Mulher muito branca, eca”. Foi o que Joyce ouviu de uma criança, acompanhada pelo pai, em uma praça pública. Em outro momento, ao passar em frente a um bar, o comentário veio de um grupo de homens: “Parece uma galinha sem colorau, eu não pegaria”. Relatos como os de Joyce, que nasceu com albinismo e baixa visão, não são casos isolados de falta de educação, mas sintomas de uma sociedade que desumaniza corpos que fogem ao padrão. Para Joyce, crescer como a única pessoa com albinismo em sua família e círculo social significou enfrentar o bullying escolar e a falta de informação dentro de sua própria rede de apoio.

Fotografia antiga. Em primeiro plano, uma menina de pele clara e cabelos ruivos na altura dos ombros está sentada, com as pernas cruzadas. Ela veste uma regata de cor clara e um short estampado. Tem a cabeça levemente inclinada para a direita e sorri discretamente. Ao lado dela, no canto direito, um bebê dorme deitado sobre um apoio acolchoado azul, vestindo roupa macia e com uma chupeta na boca. Ao fundo, há uma cortina com estampa floral em tons escuros.
Crescer sem referências fez com que Joyce tentasse esconder suas características genéticas desde pequena. Foto: acevo pessoal

O albinismo não é uma doença, muito menos contagiosa, como alguns ainda acreditam. Trata-se de uma condição genética caracterizada pela ausência ou redução da melanina, o pigmento que dá cor à pele, pelos e olhos.  

De acordo com Ministério da Saúde em 2022 estima-se que haja 22 milhões de brasileiros com albinismo. Associação das Pessoas com Albinismo no Brasil (APALBR), fala que a população desconhece que o albinismo é uma condição genética e não uma doença contagiosa. “A desinformação é uma das principais causas da discriminação. Pessoas com albinismo frequentemente enfrentam apelidos pejorativos, estigmatização, isolamento social, bullying escolar e preconceito no ambiente de trabalho” afirma APALBR.

A trajetória de Joyce é marcada por uma luta constante de autoaceitação. “Minha relação com o espelho não foi fácil… sempre querendo me mudar para poder parecer uma pessoa sem albinismo”, revela, contando que chegou a pintar o cabelo para esconder suas características por pressão de terceiros. A falta de representatividade agrava o isolamento: Joyce cresceu sem conhecer ou conviver com outras pessoas com albinismo.

O encontro com associações, como a APALBR, que possui cerca de 900 cadastrados, foi um divisor de águas. “Foi uma nostalgia, uma coisa maravilhosa saber que existem outras pessoas… que existe força e coragem para enfrentar todos os desafios”. Esse senso de comunidade é o que permite transitar da vergonha imposta pelo preconceito para o orgulho da própria identidade.

O custo invisível de viver sem proteção 

A ausência de melanina elimina a proteção natural contra a radiação ultravioleta, transformando cada exposição solar em um risco cumulativo. Segundo a dermatologista Natália Nascimento, o risco de câncer de pele nessa população é extremamente elevado, com estudos apontando que entre 26% e 29% das pessoas com albinismo desenvolvem a doença. O diagnóstico, que muitas vezes ocorre tardiamente por falta de acompanhamento médico regular, revela lesões graves já em estágios avançados.

A prevenção, porém, esbarra no bolso. “O acesso a protetores solares, roupas com proteção UV e acompanhamento dermatológico não são luxos, mas necessidades médicas essenciais”, afirma Nascimento. Para quem vive com recursos limitados, o custo de aplicar protetor FPS 50 a cada duas horas e adquirir vestimentas especiais torna-se inviável. A especialista defende que esses itens deveriam ser distribuídos gratuitamente pelo poder público como parte de uma estratégia de saúde básica.

Fotografia em plano médio de uma mulher de pele clara e cabelos ruivos longos e lisos. Ela está de frente, olhando diretamente para a câmera, com batom vermelho nos lábios. Usa uma blusa bege de gola alta e tecido canelado. Ao fundo paredes brancas, com iluminação vinda do topo.
“Somos seres humanos e precisamos de respeito”, afirma Joyce sobre a luta por direitos e inclusão. Foto: acevo pessoal

A condição genética não afeta apenas a pele. A oftalmologista Marília Medeiros explica que o albinismo está intrinsecamente ligado a alterações visuais, como o nistagmo (movimentos involuntários dos olhos), fotofobia intensa e baixa acuidade visual1. No ambiente escolar, essas características se tornam barreiras para o aprendizado quando não há adaptação: lâmpadas fluorescentes inadequadas, falta de materiais em braile ou com fonte ampliada e a ausência de tecnologias assistivas, como lupas e tablets, excluem o aluno.

Joyce sentiu na pele as consequências dessa negligência. Por falta de intervenção precoce e terapias de estimulação visual na infância, sua baixa visão piorou significativamente, levando-a a ser uma pessoa cega. Atualmente, ela utiliza recursos como bengala, leitor de tela e lupa para manter sua autonomia, mas ressalta que “não baixa a cabeça” diante dos obstáculos.

O que as entrevistas e dados revelam é que o maior desafio das pessoas com albinismo no Brasil não é a genética, mas o capacitismo estrutural. As manchas e cicatrizes na pele de muitos albinos não são apenas marcas do sol, mas evidências visíveis de barreiras socioeconômicas e falta de acesso à informação.

Para que a inclusão deixe de ser um discurso e se torne prática, especialistas e pacientes convergem na mesma urgência: a necessidade de políticas que garantam desde a distribuição de fotoprotetores até a adaptação pedagógica nas escolas. Como resume Joyce, as pessoas com albinismo não buscam compaixão, mas o cumprimento de direitos básicos: “Somos seres humanos também e precisamos de respeito como todas as outras pessoas PCD”. A luta por visibilidade continua sendo, acima de tudo, uma luta pelo direito de ocupar todos os espaços sob o sol, com proteção e dignidade.

  1. Acuidade visual é a capacidade do olho de perceber formas, contornos e detalhes de objetos a uma determinada distância ↩︎

Avatar de Larissa Pontes

Apoie o Eficientes!

O Instituto Eficientes é uma iniciativa
sem fins lucrativos que produz jornalismo acessível, gratuito e independente. Com seu apoio, conseguimos manter nossa equipe, garantir recursos de acessibilidade, custear deslocamentos para coberturas e investir em novos projetos.

No Brasil, mais de 45 milhões de pessoas têm alguma deficiência e esse grupo ainda enfrenta barreiras para acessar informação jornalística de qualidade.

Se você acredita em uma comunicação inclusiva e no direito à informação para todos,