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Como a lama e o silêncio isolam pessoas com deficiência nas chuvas em Pernambuco 

Rua alagada, com água na altura das pernas. Equipe de resgate, com roupas vermelhas e capacetes amarelos, atua com um bote inflável. Um dos agentes puxa uma corda enquanto conduz um cavalo parcialmente submerso. Casas, muros e um poste com fios aparecem ao redor, sob céu nublado.

entre o medo, memórias e isolamentos, pessoas com deficiência relatam dificuldades para sair de casa, acessar ajudar e sobreviver em meio às chuvas.

Foto: Governo de Pernambuco (Redes Sociais)

Desde a madrugada da última sexta-feira (1º), enquanto o Grande Recife e a Zona da Mata entravam em alerta máximo sob o som de trovões e chuvas pesadas, um outro tipo de isolamento começava a se desenhar para cerca de 788 mil de pernambucanos. Para as pessoas com deficiência, o volume de água que transbordou rios, alagou ruas, invadiu casas e derrubou barreiras, deixando até agora 422 desabrigados, 1.068 desalojados e 4 óbitos, não representa apenas um risco físico, mas a materialização da ausência de um planejamento público que as enxergue em meio ao caos.

Em casos de emergências como as que vimos boa parte dos pernambucanos passarem nos últimos dias, a primeira barreira é o acesso à informação. Embora os governos estadual e municipais utilizem alertas via SMS e redes sociais, a linguagem não é simples. A professora Aymee Lucy, uma mulher surda, monitora o tempo para trabalhar de bicicleta e proteger familiares em áreas de risco. Em conversa com nossa equipe de reportagem, ela expõe uma falha primária. “Minha preocupação é que a comunidade surda, no geral, não sabe ler português e não são enviadas nenhuma notícia acessível. Os alertas da Defesa Civil, por exemplo, não chegam em Libras ou em linguagem simples, e essa parcela da população não consegue compreender a informação”, disse.

Essa percepção é compartilhada pelo servidor público, Thiago Dantas, 46 anos, que utiliza cadeira de rodas. Ele ressalta que as mensagens chegam, mas o formato exclui. “Pessoas com deficiência visual, pessoas surdas ou até pessoas mais vulneráveis que têm dificuldade de leitura acabam não sendo alcançadas da forma correta”. No interior, em Palmares, o estudante, Davi Vanderlei, 25 anos, uma pessoa cega, conseguiu se manter informado pelo Google e WhatsApp, mas aponta sentir o pânico gerado pela desinformação. “O pessoal coloca muitas fake news nas redes sociais, diz que a barragem está rachando… as pessoas fazem uns alardes sem necessidade”, relata o jovem.

A desinformação se torna um risco tão real quanto a própria água. Boatos sobre barragens rachando, áudios alarmistas e vídeos fora de contexto circulam rapidamente pelas redes sociais, ampliando o medo e dificultando a tomada de decisões seguras. Sem checagem ou orientação das autoridades, essas mensagens criam um cenário de pânico coletivo, onde é difícil distinguir prevenção de exagero e onde a falta de informação confiável pode colocar ainda mais vidas em risco. 

Para Alice Xukuru, ativista e criadora de conteúdo, a chuva traz o peso da memória. Ela usa cadeiras de roda e descreve o cenário atual como desesperador, revivendo o trauma de 2022, quando caiu na água em Monte Verde, em Jaboatão dos Guararapes, enquanto usava muletas e precisou ser puxada por populares. 

Mesmo com o trauma, Alice segue atuando diretamente nos territórios, organizando arrecadações e visitando abrigos com o coletivo Arte na favela. É nesse deslocamento que as barreiras se impõem com mais força. “O mais difícil é a falta de acessibilidade, de ficar presa nos lugares, sem conseguir passar por conta da lama e tudo alagado”, afirma. 

A bióloga e servidora pública Luana Perrusi tem uma doença rara e por isso utiliza cadeiras de rodas. Ela questiona a estrutura para os resgates. “Fico vendo os vídeos e me pego pensando como uma pessoa com deficiência sai dali? Será que existem equipes especializadas para tirá-las? Quantas morrem nessas situações e não são divulgadas?”. Para ela, a chuva amplifica um risco que já é cotidiano devido às calçadas precárias. “Uma pessoa sem deficiência ainda consegue sair de casa se arriscando, nós não. Me sinto ainda mais trancada, presa, impotente”.

A sensação de “prisão domiciliar” é um relato comum. A nutricionista Mayara Esteffany descreve uma madrugada de “sonos leves” e “estado de alerta o tempo todo”, resultando no cancelamento de compromissos e em um dia inteiro trancada em casa por segurança. “O mais complicado é esse sentimento de angústia e impotência ao ver tanta notícia ruim”, conta a jovem que possui uma deficiência visual. 

Thiago Dantas reforça que o impacto vai além do risco de morte, mas da anulação da liberdade básica. Ele não conseguiu sequer ir ao supermercado ou aproveitar o feriado com a namorada. “O mais difícil é a perda de autonomia. Quando chove forte, a acessibilidade praticamente deixa de existir. Ruas alagadas, calçadas perigosas, isso impede a gente de sair e viver o básico”.

Alice Xukuru relata ter tirado dinheiro do próprio bolso para ajudar famílias em abrigos, afirmando que “esse apoio deveria vir dos governos”. Já Thiago Dantas é enfático: “Falta um olhar mais inclusivo. Em momentos como esse, as pessoas com deficiência acabam ficando mais vulneráveis e muitas vezes esquecidas. Falta planejamento e apoio específico”.

Enquanto a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e a Constituição Federal exigem proteção priorizada, a estrutura executiva parece fragmentada. Em contato com a Secretaria de Assistência Social de Pernambuco (SAS), o órgão afirmou que a atuação direta ao cidadania é responsabilidade dos municípios, cabendo ao Estado o “apoio técnico, orientações e cofinanciamento de recursos aos municípios afetados”. O Estado afirma estar monitorando as chuvas em 58 cidades pernambucanas no Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciods). “Foram mais de 500 resgates realizados, além da entrega de ajuda humanitária, abertura de escolas e apoio com cozinhas solidárias para atender a população”, afirmou a governadora Raquel Lyra em vídeo publicado em seu perfil no Instagram. 

Questionada pela reportagem sobre a existência de equipes especializadas ou protocolos para o resgate de pessoas com deficiência, a Defesa Civil do Estado, por meio de sua assessoria, não soube detalhar se esse tipo de atendimento inclusivo é previsto. 

Procurada, a Prefeitura do Recife não respondeu aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta matéria. A Prefeitura de Olinda, por sua vez, solicitou mais tempo para reunir informações sobre pessoas com deficiência residentes em áreas de risco no município. 

Sem alertas em Libras, sem equipes de resgate treinadas para a diversidade e sem abrigos com estrutura acessível. Luana Perrusi aponta que “é revoltante ver todo ano a mesma coisa acontecer e nada ser feito”.

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