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Cine PE completa 30 anos e transforma acessibilidade em regra, não exceção

Seis pessoas posam lado a lado em frente ao painel da 30ª edição do Cine PE. Ao fundo, aparece a identidade visual do festival com o número 30 em destaque. Na frente do grupo há uma mesa com microfones, taças e copos de água, indicando um momento de coletiva de imprensa.

Ao chegar à sua 30ª edição, o Cine PE celebra mais do que a longevidade de um dos festivais de cinema tradicionais do Brasil. Pela primeira vez em sua história, todas as mostras competitivas contam com recursos de acessibilidade, incluindo Legendagem para Surdos e Ensurdecidos (LSE) e audiodescrição nas sessões oficiais.

A mudança pode parecer simples para quem nunca enfrentou barreiras para acessar uma obra audiovisual. Porém, para 14 milhões de brasileiros com deficiência, essa inclusão representa a possibilidade de participar da experiência cinematográfica e uma garantia de direitos. 

O caminho até essa conquista foi construído ao longo dos anos. Desde 2017, o regulamento do festival já exigia que os filmes inscritos apresentassem legendas. Agora, ao incorporar recursos de acessibilidade em toda a programação competitiva, o Cine PE dá um passo além e sinaliza uma mudança de paradigma no audiovisual brasileiro.

Entre as vozes que ajudaram a pressionar por essa mudança está Marcelo Pedrosa, idealizador da Legenda Nacional, consultor em acessibilidade, pesquisador e frequentador assíduo de salas de cinema. Recentemente, ele coordenou uma pesquisa sobre acessibilidade em plataformas de streaming. Antes de ver a legenda ocupar o telão do Cine PE, passou anos recorrendo a aplicativos no celular para acompanhar os filmes. A alternativa permitia acesso parcial ao conteúdo, mas resultava numa experiência marcada pela desigualdade.”Você tem que olhar para a tela do celular e para a tela do cinema ao mesmo tempo. Não há igualdade. Isso não faz parte do princípio do desenho universal”, relata.

A experiência que deveria ser marcada pela imersão artística acabava se transformando em um exercício constante de atenção dividida. Foi a partir da mobilização de pessoas com deficiência, ativistas e especialistas em acessibilidade que o debate ganhou força junto à organização do festival. O resultado aparece agora, justamente no ano em que o Cine PE completa três décadas de existência: a legenda deixou de ser um recurso paralelo para ocupar o lugar que sempre deveria ter ocupado, o telão.

Para Marcelo, a mudança ultrapassa qualquer discussão técnica. “É um direito, não é um favor.” A afirmação dialoga diretamente com a Constituição Federal e com a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que reconhecem o acesso à cultura como um direito fundamental e estabelecem a acessibilidade como condição indispensável para o exercício da cidadania.

A diretora do festival, Sandra Bertini, afirma que a inclusão não pode mais ser tratada como uma medida extraordinária. “Celebrar 30 edições com acessibilidade é reconhecer o direito do público de viver a arte e participar plenamente. É um caminho sem volta.”

A abertura do festival

A primeira noite do Cine PE, realizada nesta segunda (1º), no Teatro do Parque, reuniu público, artistas e profissionais do audiovisual para a exibição de Doutor Monstro, filme estrelado por Taís Araújo que aborda elementos do universo do true crime.

Presente na abertura, a atriz destacou a importância de incorporar a acessibilidade desde a concepção das obras culturais, e não apenas como uma exigência técnica a ser cumprida ao final do processo. “É tão legal poder difundir isso para que as pessoas possam ir ao teatro e ao cinema assistir a gente, e todo mundo conseguir assistir com qualidade ao que está sendo lançado ali.”

Para Taís, a acessibilidade beneficia toda a sociedade e ajuda a romper a ideia de que esses recursos são destinados apenas a grupos específicos. “Tem que ser bom para todo mundo. Não pode ser bom para uma parcela só. Mesmo que você não faça especificamente parte daquele grupo, quando é bom para um, é bom para todo mundo”, afirma a atriz. 

Um desafio que vai além dos festivais

Os 30 anos do Cine PE deixam uma mensagem clara: a tecnologia necessária para tornar o audiovisual acessível já existe, a legislação brasileira é robusta e a demanda social é cada vez mais evidente. O desafio agora é fazer com que iniciativas como essa ultrapassem os limites dos festivais e cheguem ao cotidiano do consumo cultural.

A discussão alcança cinemas comerciais, produtoras, distribuidoras, emissoras de televisão e plataformas de streaming, setores que ainda apresentam lacunas significativas quando o assunto é acessibilidade comunicacional.

A exclusão cultural não é um acidente de percurso. Ela resulta de decisões institucionais que, durante décadas, trataram pessoas com deficiência como público secundário. Ao garantir que a experiência cinematográfica aconteça em igualdade de condições, o Cine PE demonstra que inclusão não depende de soluções complexas, mas de prioridade política e compromisso com os direitos humanos.

Mais do que exibir filmes, o festival lança uma pergunta para o audiovisual brasileiro: quem ainda está ficando de fora da sala de cinema? A resposta ajudará a definir se o futuro do setor será verdadeiramente acessível ou se a democratização da cultura continuará sendo uma promessa incompleta.

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